Terça-Feira, 16 de Outubro de 2018
Alagoas

Desafiados, índios resistem em manter identidade em Alagoas

Por: Vale Agora Web em 19/04/2018 às 9:31
FOTO: MARCELO AMORIM

FOTO: MARCELO AMORIM

Mesmo com história reconhecida há mais de três séculos, existente antes mesmo de Alagoas se tornar independente da então capitania de Pernambuco e se transformar em estado com seus 200 anos, os índios alagoanos vivem desde lá no esquecimento e no ataque constante por parte do poder público, que deixa de cumprir os direitos assegurados dos povos e com isso se mantém como o principal responsável por contribuir para a extinção das aldeias.

Hoje, 19 de abril, é comemorado o Dia do Índio. A data já está consolidada no calendário, mas apenas pela força das etnias que ressurgiram, pela luta ao resgate e manutenção da própria cultura e a busca pelo pertencimento à terra é que podem de fato representar a existência dos indígenas em terras caetés.

“Não temos alegria quase nenhuma para comemorar a data. Temos um passado de um povo bom e pacífico e não de violência como a que foi praticada contra nós pelo ‘homem branco’ e que nos retirou das terras onde vivíamos. Estamos esquecidos pelo poder público”, lamenta José Ferreira dos Santos, índio descendente dos Xucuru-Kariri de Palmeira dos Índios.

Para comemorar o dia dedicado aos povos indígenas, ele deve se unir hoje a outros indígenas em um toré, a dança tradicional de seus povos, em uma comunidade da zona rural da localidade. Ontem, fizeram apresentação no museu da cidade que leva o nome da etnia.

Ferreira, também conhecido como Zinho, pode bem representar a realidade de praticamente a maioria dos índios alagoanos. Em 1872, conta em livro o historiador Jorge Vieira, o então presidente da província, Luís Rômulo, baixou decreto extinguindo na época 20 grupos indígenas existentes em Alagoas. Apesar deste ato ter ocorrido há 145 anos, esta realidade parece se manter até os dias atuais com a tomada de terras antes pertencentes a esses povos.

Como seus antepassados, os pais de Zinho foram expulsos da região de Atalaia, para que suas terras descem lugar a plantações de cana. Jogados ao mundo sem apoio, conta ele, conseguiram chegar até aos municípios de Quebrangulo e Paulo Jacinto, para morarem na periferia da cidade.

Ele, como segunda geração a partir dos pais e já com filhos e netos, vive praticamente o mesmo dilema. A diferença é que Ferreira conquistou um emprego de vigilante, em Palmeira dos Índios e com isso consegue manter a família com sacrifício na periferia da terra dos Xucuru-Kariri, embora seu desejo fosse o de morar na própria aldeia, a Mata da Cafurna.

“Como tenho que me deslocar para o trabalho, precisava pagar R$ 10 para subir ou descer a serra de moto”, cita ele, ao se referir a somente uma das dificuldades que enfrenta.

Para além dessas questões comuns a todos os alagoanos de baixa renda, os indígenas acabam por ser mais afetados pela ausência de serviços públicos em suas comunidades e principalmente pelo descumprimento de seus direitos assegurados na Constituição.

“A maioria de nós vive desempregado e, para sobreviver e evitar entrar no mundo das drogas, produzimos artesanato, realizamos o toré, cultivamos a lavoura”, reforça. Obrigados a frequentarem escolas normativas e buscarem acesso à saúde em postos de atendimento do SUS, acabam ainda mais abandonados à própria sorte. “Sem medicamentos, temos buscado nossa salvação nas ervas e plantas que cultivamos, ensinamentos transmitidos por nossos antepassados”, pontua Zinho.

E é a própria cultura e à transmissão de seus conhecimentos às futuras gerações, que têm contribuído para o fortalecimento da identidade dos povos indígenas alagoanos.

Na aldeia Karuazú, no Alto Sertão do estado, o cacique Edvaldo Soares de Araújo, mesmo se locomovendo em cadeira de rodas, procura manter a tradição de cerimônias como a do “Cansanção” para as suas crianças.

Anualmente, durante 40 dias, eles realizam rituais comandados pelos Praiás, homens que circulam pelo terreiro, evocando proteção para a sua gente e formando um toré, acompanhado com atenção pelos pequenos indiozinhos, a exemplo de Welton da Silva Lima Feitosa e Wesley Duan da Silva dos Santos.

O primeiro, com apenas sete anos de idade e o segundo, c om seis, sabem que têm que respeitar a própria tradição e, sem obrigação, já se dispõem a pintar a pele com barro branco e a brincar, tentando repetir os passos e os cânticos dos Praiás, embora, mesmo que involuntariamente, estejam envolvido com o mundo atual e seus smartphones e gostos comuns a todas as crianças.

“Quero ser jogador de futebol”, antecipa Wesley, em meio a um campo de terra batida existente na aldeia, reconhecida em 1999, porém, sem ter as terras demarcadas até então.

Indígenas resistem ao processo de dispersão

Há 100 anos, segundo conta o historiador Jorge Vieira, existiam em Alagoas apenas os Xucuru-Kariri, na região de Palmeira dos Índios e os Kariri-Xocó, em Porto Real do Colégio, que apesar de todo o processo de extermínio de suas culturas e expulsão de suas terras, consequiram resistir ao processo de dispersão.

“Em 1954, os Xucuru-Kariri conseguiram uma pequena gleba de terra na Fazenda Canto e os Kariri-Xocó se estabeleceram na Rua dos Caboclos, na periferia. Somente no final dos anos de 1970 é que começaram a ressurgir os demais grupos”, afirma Vieira. A maior dos indígenas, sem rumo e condições de sobrevivência, teve que migrar para cidades como Maceió, à procura de emprego. Foram os índios, reforça o historiador, os principais responsáveis pela construção do histórico bairro de Jaraguá. Também foi no final dos anos de 1970 que surgiu o primeiro livro resgatando a história dos indígenas alagoano, escrito por Clóvis Antunes.

Desafiados, índios resistem em manter identidade em Alagoas

FOTO: MARCELO AMORIM

“A partir desse período, os índios voltam a se organizar e a buscarem seus direitos a etnia, terras, saúde educação”, assegura Pedro Vieira. Com isso, teve início ao ressurgimento dos indígenas alagoanos e assim voltaram a se formar em aldeias os Wassu Cocal, Carapotó, Tingui Botó e Jeripankó. Somente a partir de 1990, por intermédio do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), os povos começaram a se organizar e a partir de 1998 retomaram à sua cultura os Kalancó, Karuazú, Katoquim e mais recentemente os Akonã e os Pankararu.

“Nenhum desses povos, nem mesmo os mais antigos, têm território demarcado. Não há cumprimento por parte do estado ao decreto que determina a criação das terras indígenas, publicando ainda em 1996. A principal questão para os índios é a terra. Sem ela não tem como se reproduzir e com isso são obrigados a se deslocarem até mesmo para outros estados em busca de trabalho. Esse êxodo fez com que incorporassem o alcoolismo e as drogas, distanciando-os dos mais momentos mais importantes de suas comunidades”, alerta Jorge Vieira. A força, ressalta o historiador, tem se mantido no reforço da própria identidade com os costumes e ritos e na prática da religiosidade.

Embora consigam preservar o que ainda resta de cultura, os indígenas alagoanos seguem na luta em busca de escolas na aldeias em busca de uma formação diferenciada, nas quais possam manter o idioma de seus antepassados e suas tradições relacionadas ao aprendizado. Atualmente, ainda não há escola específica em nenhuma aldeia em Alagoas, mas, começa a surgir um farol em direção aos direitos desses povos, através do projeto de formação de professores indígenas pela Universidade Estadual de Alagoas, que, em sua segunda edição em execução, pretende formar 200 novos profissionais em diversos cursos de licenciatura. Eles devem se juntar aos primeiros 80 professores já formados, mas que ainda esperam para que, um dia, o governo do Estado promova concurso destinado a este público.

Para reforçar a causa indígena e discutir o tema, a Assembleia Legislativa Estadual realiza sessão pública, amanhã pela manhã, “como forma de chamar a atenção da sociedade e dos governantes para as demandas que os índios alagoanos estão passando”. O evento partiu de mobilização do Núcleo Acadêmico Afro e Indígena (Nafri) do Cesmac.

Alagoas nega historicamente seus povos indígenas

“Alagoas é um Estado que, assim como o Brasil, de modo geral, historicamente nega seus povos indígenas. Começa com o extermínio dos Caetés, primeiros habitantes do território, ainda no século XVI. Em 1872, usando como fundamento dados do primeiro censo nacional brasileiro, um ‘genocídio estatístico’, segundo o historiador José Murilo de Carvalho e atendendo aos apelos dos deputados provinciais, que eram fazendeiros e proprietários com interesse nas terras indígenas, o governo provincial extinguiu oficialmente todos os aldeamentos, afirmando que aqui não havia mais índios”, relata o professor e também historiador Cosme Rogério Ferreira.

Diante desta realidade, segundo atesta, os indígenas alagoanos resistiram como puderam, às escondidas, vulnerabilizados na periferia urbana ou em pequenos espaços rurais. Cosme Rogério lembra que o movimento ruralista tem se oposto ao direito constitucional à demarcação, que deveria ter sido concluída no País há aproximadamente 25 anos.

“Por interferência política desse movimento anti-indigenista, o processo de demarcação da terra indígena do Xucuru-Kariri ainda não atingiu sua última fase, que é a homologação. A questão indígena em Palmeira dos Índios é gêmea siamesa da cidade. Sua gênese, em 1773, foi uma aldeia, ou seja, uma unidade administrativa colonial portuguesa, que obedecia a um projeto implementado no Brasil colonial. A ideia era transformar o índio em colono, sendo este proibido de falar a própria língua e a ser catequizado pelos capuchinhos. Palmeira dos Índios e os Xucuru-Kariri surgiram desse processo, que se arrastou ao longo dos séculos”, relembra Cosme Ferreira.

Para o historiador, nascido e se criado na localidade, ainda prevalece na cidade a visão estereotipada do índio, moldada pela ideologia dominante, que coloco os povos indígenas em um único rótulo, ignorando a diversidade sociocultural do Brasil e a história da própria localidade.

“Os discursos preconceituosos de hoje ecoam os discursos do século XIX, que negavam a existência dos índios alagoanos. Só que os dados derrubam facilmente as teses antiindigenistas. Há quem diga que a demarcação levará Palmeira dos Índios ao desastre econômico, com desemprego etc. Só que a cidade está mergulhada num desastre econômico há décadas, e não foi a demarcação quem a criou, mas sim os grupos dominantes. Há quem questione o porquê de os índios quererem ‘tanta’ terra. Ora, cerca de 70% da banana produzida em Palmeira dos Índios é cultivada pelos índios, para citar um exemplo. A resposta pode ser: os índios querem terra para alimentar saudável e organicamente a cidade; para preservar a riqueza biológica dos resquícios de mata atlântica e de caatinga que só existem no território palmeirense, porque existe a reserva indígena; para preservar os seus usos, costumes e tradições, experimentando o bem-viver; para exercitar o seu direito à diferença, como prevê a Constituição Federal. O respeito às diferenças e a abertura para conhecer a realidade do outro são antídotos contra tais preconceitos. Como se vê, há muito trabalho a ser feito”, reforça o historiador.

Por Marcelo Amorim | Portal Gazetaweb.com

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