Terça-Feira, 12 de Novembro de 2019
Brasil

O alagoano que conviveu com três santos

Por: Vale Agora Web em 15/10/2019 às 8:40

Dom_AvelarNeste dia 13 de outubro de 2019, o Vaticano conclui a canonização de Irmã Dulce, a primeira santa brasileira. É o merecido reconhecimento do trabalho de quem dedicou a vida aos mais pobres. Durante mais de uma década, Irmã Dulce conviveu com o alagoano Avelar Brandão, então Arcebispo Primaz de Salvador.

O viçosense foi um dos mais importantes religiosos do país, tendo exercido um papel destacado em um dos mais tumultuados períodos da história brasileira: a ditadura militar.

Na crônica abaixo, que publiquei no livro “Atrevidos Caetés – 50 encontros entre alagoanos & personalidades mundiais”, destaco a relação de Dom Avelar com três santos da Igreja Católica: João Paulo II, Madre Teresa de Calcutá e Irmã Dulce.

Boa leitura!

Dom Avelar Brandão &

Papa João Paulo II, Madre Teresa de Calcutá e Irmã Dulce

Há um município alagoano cuja população, orgulhosa de seus filhos ilustres e de sua vocação intelectual, denomina-o de Atenas de Alagoas. Se é muita pretensão ou não, o fato é que Viçosa impressiona por ser o berço de diversos escritores – prosadores e poetas – pesquisadores, historiadores, políticos, líderes religiosos, dentre outros.

Para se ter uma ideia de como o município é diferenciado no tocante ao aspecto cultural, houve até mesmo a chamada Escola de Viçosa, composta por intelectuais como Théo Brandão, José Maria de Melo, José Aloisio Brandão Vilela e José Pimentel Amorim. Chama a atenção o fato de que, nesta época, um quarto dos integrantes da Academia Alagoana de Letras era viçosense.

Também merece destaque que Viçosa, além da vida intelectual agitada que lhe caracterizou durante muitos anos, tendo inclusive abrigado vários jornais, também tem sido um ambiente propício para o desenvolvimento da arte popular, como é o caso das manifestações folclóricas que sempre foram tradicionais no município. Isto, evidentemente, passou a ser ainda mais incentivado com a presença de ilustres viçosenses, que tornaram a cidade um dos principais centros do folclore alagoano.

Dentre estes viçosenses que se destacaram, muitos deles vieram da família Brandão Vilela. Neste contexto, só para citar alguns nomes desta família que deu ao Brasil grandes personalidades, registrem-se as figuras de Octávio Brandão, considerado um dos primeiros brasileiros que levantou a discussão sobre questões ambientais, reforma agrária e petróleo; Teotônio Brandão Vilela, um dos políticos que mais se destacou na luta pela redemocratização do país durante a ditadura militar; Theotônio Vilela Brandão, o Théo Brandão, um dos maiores pesquisadores de folclore no Brasil.

Neste contexto, foi também nesta família que nasceu Avelar Brandão Vilela em 1912, que, ao seguir sua vocação religiosa, destacou-se como um dos maiores líderes da Igreja Católica no Brasil do século vinte.

Em 1935, Dom Avelar foi ordenado padre no Estado de Sergipe, onde ficou por onze anos. Sua próxima missão foi como Bispo de Petrolina (PE), tendo lá permanecido por dez anos. Outro estado nordestino que abrigou o religioso alagoano foi o Piauí, onde Dom Avelar foi, por quinze anos, Arcebispo de Teresina.

Apesar do grande e reconhecido trabalho que Dom Avelar realizou nas referidas funções, não há dúvidas de que ele teve mais projeção quando assumiu o cargo de Arcebispo de Salvador, onde permaneceu de 1971 a 1986, ano em que faleceu. Vale lembrar que o Arcebispo da capital baiana é também o Arcebispo Primaz do Brasil.

Durante o período em que Dom Avelar Brandão liderou a Arquidiocese de Salvador, diversos fatos relevantes ocorreram. Neste contexto, foi durante o seu pastoreio que o Vaticano, em 1980, concedeu o título de Sé Primacial à Arquidiocese de Salvador, e o título de Primaz a seu Arcebispo. Merece ainda registro que também foi sob o seu comando que as Missionárias da Caridade, congregação de Madre Teresa de Calcutá, chega ao Brasil, quando veio para a Bahia.

Dom Avelar Brandão conheceu diversos Papas. Em 05 de março de 1973, o Papa Paulo VI o nomeou Cardeal. Seu irmão, o senador Teotônio Vilela (o Menestrel das Alagoas), que esteve presente na cerimônia, registraria o momento em que o papa lhe conferiu o barrete cardinalício em plena Basílica de São Pedro, no Vaticano: “éramos duas crianças chorando de alegria e de paz. Em torno, curiosos internacionais observam a cena, mas os dois meninos de bagaceira de engenho simplesmente prestam contas a Deus e aos seus já falecidos pais dos benefícios recebidos (…) Senti o coração comprimir-se, como num estrangulador afago íntimo, para depois dilatar-se, tal qual balão de sopro nos lábios de criança, subir por cima do silêncio, da santidade da solidão e da saudade até agasalhar-se na famosa cúpula que o gênio de Miguel Ângelo doou à História Artística da Humanidade”, declarou o emocionado Teotônio.

Após sua nomeação como Cardeal, Dom Avelar participou dos conclaves que elegeram os papas João Paulo I (agosto de 1978) e João Paulo II (outubro de 1978). A propósito, dois anos após o início do pontificado de João Paulo II, o alagoano de Viçosa o recepcionaria em Salvador, quando de sua primeira visita ao Brasil.

Na capital baiana, o Papa João Paulo II (desde 2014, Santo João Paulo II) “conheceu a miséria da Favela de Alagados e abençoou uma mãe-de-santo, apresentada pelo cardeal dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo primaz do Brasil e expressivo representante da ala “progressista” da CNBB”, destacou o jornal Correio do Povo.

Antes da viagem do Papa ao Brasil, Dom Avelar chamou atenção para o fato de que a mesma “não deveria render dividendos políticos aos governantes encarregados da recepção”. Ressaltou também que “não seria digno qualquer tipo de movimento que pretendesse transformar João Paulo II em arauto de suas ideais especiais e seus programas ideológicos”.

Na verdade, antes mesmo de realizar a viagem ao Brasil, o Papa João Paulo II pediu a Dom Avelar Brandão Vilela que escolhesse um bairro para ele visitar. O Arcebispo de Salvador, demonstrando sua opção pelos mais necessitados, escolheu o bairro dos Alagados, um dos mais carentes da capital baiana, para acolher o Papa.

Após saber da escolha de Dom Avelar, João Paulo II, bem antes da viagem, atribuiu a Madre Teresa de Calcutá uma importante missão: ela deveria visitar o bairro de Alagados e iniciar lá um trabalho de assistência aos mais necessitados.

Foi assim que, a pedido do Papa e atendendo ao convite de Dom Avelar, Madre Teresa vem a Salvador em 1979, ano em que recebe o Prêmio Nobel da Paz, e funda a Creche das Irmãs Missionárias da Caridade, que ficava aos pés da colina onde hoje está a igreja Matriz. Além do encontro com Dom Avelar, foi nesta ocasião que Madre Teresa de Calcutá conhece Irmã Dulce (o “anjo bom da Bahia”), religiosa que chegou a ser chamada “Madre Teresa do Brasil” e que desenvolveu um trabalho assistencial junto às comunidades carentes, sobretudo no bairro de Alagados.

A albanesa (para alguns, macedônia) Agnes Gonxha Bojaxhiu, a Madre Teresa de Calcutá, seria beatificada em 2003 e declarada santa em 2016. A baiana Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, a Irmã Dulce, foi indicada ao prêmio Nobel da Paz em 1988, foi beatificada em 2011, e pode se tornar santa nos próximos anos.

Durante a visita do Papa João Paulo II em 1980, o padre José Carlos da Silva lembra de um episódio, para ele inesquecível. Na época, ele estava prestes a se ordenar, quando recebeu de Dom Avelar o presente mais especial de sua vida: o Arcebispo de Salvador conseguiu incluí-lo em um grupo de seminaristas que seria ordenado pelas mãos de João Paulo II em cerimônia que ordenou setenta e cinco padres em celebração no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro.

“Quando dom Avelar falou isso comigo e com outro colega seminarista (João Batista) ficamos muito emocionados. O único momento que tivemos de contato com ele foi no dia da ordenação, quando ele celebrou a missa. Lembro do momento que ele colocou as mãos na minha cabeça e pediu que seguíssemos o exemplo de Deus”, relembra o padre sobre seu encontro com João Paulo II. Ele lembra ainda que Dom Avelar afirmou que ser ordenado pelo Papa João Paulo II não era um privilégio, mas uma grande responsabilidade.

Dom Avelar Brandão teve um importante papel em um dos períodos mais conturbados da história brasileira: a ditadura militar. Em uma época em que os ânimos sempre estavam exaltados, Dom Avelar procurava, com muita lucidez, trazer o diálogo para setores da sociedade quando este parecia impossível.

“Não sou nem progressista nem conservador e nem moderado. Eu não sou conservador no sentido de amar as tradições de tal modo que me identifique com elas como se elas fossem a expressão absoluta da verdade. Eu não sou conservador no sentido de amar as tradições de tal modo que as considere todas iguais, no valor e no conteúdo, como se não fosse possível incorporar ao patrimônio comum novos valores, aqueles valores que são a contribuição específica, própria de cada momento histórico, riqueza de uma mesma humanidade que caminha, pensa e reflete e se faz também capacidade criadora, ao longo da história. Eu não sou moderado no sentido de ser indiferente aos apelos dramáticos da hora presente, de não compartilhar das inquietudes que a visão prospectiva da vida nos apresenta inexoravelmente. Sou amante do progresso, progresso integral dos povos. Eu sou um conservador no sentido de respeitar as legítimas tradições religiosas e culturais. Há muito o que considerar se quisermos manter a nossa identidade. Há muito o que renovar se quisermos ser fiéis à nossa vocação de peregrinos da história. Sou moderado quando as radicalizações se levantam intransigentes e absurdas; quando as violências se erguem com imposições fatais e dilacerantes, ameaçando esperanças e estiolando ideias. Eis o que sou”, declarou o alagoano Avelar Brandão Vilela.

Sobre suas opções político-ideológicas, dizia que “para a Igreja o capitalismo selvagem não interessa, e o coletivismo marxista não resolve. A terceira via tem objetivos claros: conciliar os interesses das pessoas e dos grupos com as exigências maiores da coletividade”.

Gilberto Freyre destacava o forte carisma de Dom Avelar: “Há, no mundo, seres carismáticos. O arcebispo da Bahia, que há pouco visitou o Recife, é um deles no Brasil de hoje. É um autêntico homem de Deus. A serviço de Deus. Irradia essa sua missão. Ele faz que o acompanhe em prece quem já deixou atitudes de crente seguidas quando criança. (…) em idade tão provecta, nunca vi um líder religioso de alta responsabilidade e de notável saber”.

Sobre sua vida pessoal, quem dá algumas pistas é o também viçosense Marcos Vasconcelos Filho, que, em 2012, durante o centenário do nascimento do primeiro Arcebispo Primaz do Brasil, escreveu:

“Avelar era um homem de traços elegantes. Voz pausada. Gestos parcimoniosos. De um cuidado com o asseio do corpo sobre o qual aplicava o sabonete Viol. Torcedor botafoguense. Leitor de Machado de Assis. Apreciador de um bom vinho ou de uma Malzbier, de um bom banho de lagoa, de cavalgar, de tomar leite de manhãzinha, de tomar leite e só após o café. Jogador de futebol, xadrez chinês, gamão, pingue-pongue, ludo, dama, jogo de memória com ilustrações de pássaros. Degustador de comidas simples que lhe recordassem a sua Mata Verde de tantas saudades. Tez um tanto trigueira como o próprio Brasil em ebulição histórico-cultural na responsabilidade de pregar o Evangelho cristão em meio à pluralidade, aliás tão bela, do sincretismo religioso da nação que o fazia transcender numa metáfora: “Estou queimado pelo calor baiano”.

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