Quarta-Feira, 01 de Dezembro de 2021
Brasil

PC Farias e Suzana: tragédia completa 17 anos envolta em mistério

Por: Vale Agora Web em 05/05/2013 às 21:29
Suzana e PC mortos: cena do crime foi toda alterada.

Suzana e PC mortos: cena do crime foi toda alterada.

O julgamento dos quatro réus acusados nas mortes do empresário Paulo César farias e de sua namorada Suzana Marcolino, que começa nesta segunda-feira (6) no Tribunal do Júri da 8ª Vara Criminal de Maceió, traz de volta polêmicas e fatos bombásticos que sacudiram Alagoas e o país. Tudo começou há quase 17 anos, a partir da madrugada daquele distante domingo, 23 de junho de 1996, na casa de praia do empresário, em Guaxuma.

Dois tiros soaram naquela madrugada. Um deles matou PC, entrando pelo lado esquerdo de seu tórax, perfurando o coração e um dos pulmões. O outro tiro, da mesma arma – um revólver calibre 38, cano curto – entrou no peito de Suzana, que também teve morte instantânea.

Estavam na casa de praia os quatro seguranças de PC (e até hoje funcionários da família Farias, que paga o advogado que os defende, um dos mais caros de Alagoas) Adeildo dos Santos, Reinaldo Correia de Lima Filho, Josemar dos Santos e José Geraldo da Silva, todos policiais militares da ativa.

Impeachment, fuga e prisão

Paulo César Cavalcante Farias foi tesoureiro de campanha do ex-presidente e hoje senador Fernando Collor. Esteve diretamente envolvido nos escândalos que culminaram no processo de impeachment que tirou Collor do poder, em setembro de 1992. Acusado de corrupção e enriquecimento ilícito, PC havia sido preso, depois fugiu do Brasil e foi recapturado na Tailândia. Recambiado para Maceió, foi instalado numa prisão confortável, no quartel do Corpo de Bombeiros. Foi ali que conheceu Suzana Marcolino, uma jovem bonita que se tornou sua namorada, depois que PC perdeu a esposa, Elma, morta em julho de 1994, em Brasília, de edema pulmonar e insuficiência cardíaca, quando o marido estava preso.

Por tudo o que PC havia protagonizado nos últimos anos de sua vida – e porque tinha um depoimento marcado para aquela época –, sua morte em circunstâncias trágicas e misteriosas monopolizou as atenções. A família Farias e a própria polícia alagoana contribuíram, da forma mais atrapalhada possível, para agravar ló mistério e cercá-lo de suspeitas.

Cena do crime foi alterada

A cena do crime – o quarto onde o casal foi encontrado – foi completamente alterada. Os dois morreram de madrugada, mas horas depois, só no início da manhã, a polícia foi chamada – e demorou a chegar.

Logo nas primeiras horas após o crime, a família Farias e a própria polícia alagoana já se apressavam a dar uma versão “definitiva” para o caso: afirmaram que havia ocorrido um homicídio seguido de suicídio, ou seja, Suzana teria matado PC com um tiro e, em seguida, apontara contra o próprio peito a arma (um revólver calibre 38 que ela comprara dias antes em Atalaia) e disparara outro tiro fatal. Essa versão de crime passional – Suzana estaria desesperada porque PC queria terminar seu envolvimento com ela para namorar outra mulher, Cláudia Dantas – foi difundida por boa parte da imprensa brasileira. A revista Veja, por exemplo, apenas uma semana depois do crime, publicou reportagem, com o título de “Caso encerrado”, em que afirmava que houve mesmo crime passional.

Outras publicações, no entanto, resolveram investigar mais a fundo. A revista IstoÉ reuniu dados desprezados no inquérito e publicou uma série de reportagens levantando evidências de que teria havido um duplo homicídio. O jornal Folha de S. Paulo fez outra série de reportagens que mostravam os “furos” na apressada versão inicial.

Recursos adiam desfecho por 17 anos

O juiz original do caso, Alberto Jorge Correia de Barros Lima, acolheu os argumentos do promotor original, Luiz Vasconcelos, do Ministério Público Estadual, e assinou a sentença de pronúncia, mandando os quatro ex-seguranças para o banco dos réus. Sucessivos recursos da defesa dos acusados atrasaram em 17 anos o processo, que agora chega ao fim. O último recurso da defesa foi rejeitado pelo STF.

Remando contra a maré

O promotor Luiz Vasconcelos não está mais na 8ª Vara Criminal de Maceió. Em seu lugar atuará o promotor Marcos Mousinho. Vasconcelos acompanhou durante anos toda a fase de investigação do caso PC-Suzana e assinou a peça que acusa os quatro ex-seguranças de co-autoria no duplo crime.

Vasconcelos remou contra a maré. Não se conformou com a versão de crime passional, homicídio seguido de suicídio, que remeteria o caso para o arquivo. Apontou evidências que haviam sido desprezadas ou ignoradas no inquérito policial, reuniu provas técnicas suficientes para convencer o juiz Alberto Jorge a dar a sentença de pronúncia contra os quatro acusados.

“Suzana não atirou, há provas disso”

Em junho de 2011, Luiz Vasconcelos conversou com o TNH1. “Quando pegamos o caso, prevalecia a tese do homicídio seguido de suicídio”, lembra Vasconcelos. “Mas havia muitas falhas no inquérito. Nós reinvestigamos tudo, fizemos várias análises periciais, solicitamos novas perícias, depois fizemos o confronto entre as primeiras perícias e as novas que foram realizadas. Fizemos também novas oitivas de testemunhas. Foi mais de um ano de investigação, deu muito trabalho mas o resultado foi que pudemos chegar a conclusões técnicas muito claras, com elementos de convicção fortes, e que foram acolhidos pelo juiz”.

A principal conclusão:

“Suzana Marcolino não atirou em Paulo César Farias e nem nela própria. Uma terceira pessoa matou os dois”. E acrescenta: “Eu provo isso”.

“Não é uma dedução, é o resultado de provas técnicas. Sabemos que a cena do crime foi modificada, foi manipulada para dificultar as investigações. Mesmo assim, foi possível recolher provas técnicas muito sólidas”.

Sanguinetti fora

Indagado pelo TNH1 sobre a interferência do médico-legista George Sanguinetti – que se apresentou dando entrevistas, ofereceu-se para atuar no caso e ganhou espaço na mídia emitindo opiniões sobre o crime –, Luiz Vasconcelos esclareceu que, para o trabalho do Ministério Público, as seguidas manifestações de Sanguinetti nunca foram levadas em conta. “Não é considerada prova, nem mesmo é considerado um laudo. É só manifestação dele”. Sanguinetti não foi arrolado como testemunha nem teve depoimento requisitado pela defesa nem pela acusação. Está fora.

O dentista e as mensagens de voz

Outro dado bombástico descoberto na sequências das investigações foi o envolvimento de Suzana com outro homem.

Os últimos instantes de Suzana Marcolino com vida foram gravados – por ela própria. Dois dias antes de morrer, ela havia ido a São Paulo. Lá, foi ao consultório de um dentista, Fernando Colleone, então com 29 anos. Depois, saiu com ele para jantar.

O fato é que, depois das mortes em Guaxuma, descobriu-se que a caixa postal do celular de Fernando Colleonee, São Paulo, tinha mensagens de voz de Suzana. Às 3h54 da manhã de 23 de junho – provavelmente PC já estava morto – a voz de Suzana é captada dando o seguinte recado:
– Fernando… Eu queria dizer que nunca vou esquecer você. Um cara humano. Tenho certeza de que vou lhe encontrar em algum lugar. Um beijo.
Antes de Suzana desligar, ouve-se na gravação uma voz de homem, sussurrando:
– O que você está fazendo aí? Te arruma, te arruma.
Suzana responde:
– Me arrumo – e a linha cai.

Outras duas ligações de Suzana para o dentista, com mensagens de voz, foram descobertas no celular de Colleone.
– Sou eu novamente – disse ela, às 4 horas e 58 minutos da manhã.
O tom de voz de Suzana, nesta mensagem, parece ter mudado:
– Espero um dia rever você, nem que seja na eternidade, em algum lugar, não sei… No outro mundo eu encontro você, tenho certeza absoluta.
Outra ligação, às 5h01:
– Amor. Fernando. É Suzana.

Fim. Foram as últimas palavras de Suzana registradas com vida.

Quem conversou com ela pedindo que se arrumasse? Por que Suzana diz essas coisas, como se esperasse a morte? Ela sabia que ia morrer, ou que seria assassinada?

São mistérios que o julgamento poderá esclarecer. Ou não.

Por Plínio Lins/TNH1

PC Farias: política, dinheiro, prisão e morte.

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