Quarta-Feira, 05 de Agosto de 2020
Cultura

Gripe espanhola de 1918 provocou caos e fez milhares de vítimas em Alagoas

Por: Vale Agora Web em 29/03/2020 às 21:14

Muito antes do coronavírus, há mais de um século, Alagoas enfrentava outro grande desafio sanitário: a contenção da gripe espanhola (Influenza H1N1). A pandemia de 1918 é considerada uma das mais letais da história recente da humanidade e afetou diversos países. Com dados imprecisos, os jornais da época noticiaram mais de mil mortes em Alagoas, milhares de infectados e medidas semelhantes às que são observadas hoje, como isolamento social, higienização das mãos e atenção aos idosos.

Corpos jaziam nas calçadas, famílias inteiras padeciam e não havia hospitais, médicos, nem ao menos coveiros que dessem conta dos cadáveres de homens, mulheres, crianças e idosos, mortos pela misteriosa doença de nome engraçado: gripe espanhola. Essa é a síntese do relato assombroso que a “Gazeta de Notícias”, jornal que circulava no Rio de Janeiro em 1918, estampava na edição do dia 18 de outubro daquele ano, quando se assumia o colapso da saúde e dos governos diante da moléstia.

Apesar de não ter surgido na Espanha, a doença ganhou esse apelido porque, em meio à Primeira Guerra Mundial, os países resolveram minimizar o potencial do influenza H1N1 para não desmobilizar as tropas. A censura em países como Alemanha, Reino Unido, França e Estados Unidos estabeleceu que a imprensa só poderia abordar o flagelo da doença na Espanha, que estava neutra na guerra. Isso passou a impressão de que somente o povo espanhol estava sofrendo com a gripe espanhola.

Estima-se que, à época, o vírus tenha infectado 500 milhões de pessoas, o que representava um quarto da população mundial. Os dados históricos e epidemiológicos são imprecisos, mas a gripe pode ter vitimado entre 20 milhões e 50 milhões de pessoas em todo o globo. O H1N1 causou uma segunda pandemia, de menor letalidade, em 2009.

Especula-se que a gripe espanhola veio para o Brasil a bordo do transatlântico Demerara, que, sem saber, trouxe passageiros infectados para Recife, Salvador e para o Rio de Janeiro, que era a capital do País. O Jornal do Recife noticiou a chegada do navio, no dia 9 de setembro de 1918. “O Demerara fez boa viagem, sem incidentes dignos de nota, prosseguindo ontem mesmo a viagem para a Argentina […]”, diz trecho do impresso pernambucano.

Um mês depois, o caos estava instalado. “Por toda parte, o pânico, o assombro, o horror!” – exclamou o deputado Sólon de Lucena (PB), de acordo com o arquivo do Senado Federal. “Todas as classes, desde os humildes trabalhadores até aqueles que gozam do maior conforto na vida, foram alcançados pelo flagelo terrível, que bem parece universal”, continuou o deputado em um dos documentos históricos.

Recomendações para mitigar coronavírus são praticamente as mesmas da gripe espanhola

FOTO: REPRODUÇÃO/AGÊNCIA SENADO

Nesses documentos, também é possível constatar a corrida das autoridades para dar uma resposta à pandemia, com ações como isolamento social, suspensão de aulas e proibição de encontros religiosos, festas e teatros. Também é possível perceber que havia certa descrença sobre o potencial aniquilador da moléstia, além de haver registros sobre a crença de que a gripe mataria apenas crianças e idosos, quando, na verdade, a doença atingiu um número expressivo de jovens adultos, entre 20 e 40 anos.

– O que vemos são acontecimentos funestos, uma verdadeira hecatombe – resumiu o então deputado Azevedo Sodré (RJ).

ALAGOAS

Os primeiros dias de outubro já alarmavam os nordestinos, com casos confirmados em Pernambuco. Naquela época, embarcações partiam do Recife e faziam escala em Jaraguá, antes de seguirem para o sul do País. A doença pode ter chegado dessa maneira em Maceió. O que se viu nos dias seguintes foi uma sequência de amenizações acerca da letalidade da doença, com jornais repetindo exaustivamente que os casos fatais eram poucos e que a epidemia de influenza, apesar de ser identificada em várias pessoas, não oferecia riscos.

Alguns dias depois, no dia 30 de outubro de 1918, começava uma corrida atrás dos prejuízos causados pela negação. Os doentes eram tantos que se espalharam pelas ruas, pois não havia leitos nos hospitais. O Palácio do Governo de Alagoas convocou uma reunião de emergência para que uma comissão lidasse com a pandemia e proibiu aglomerações públicas, além de acatar medidas que já vigoravam no País, como a prorrogação de prazos de pagamento e higienização das ruas. No dia 1º de novembro, o correspondente do Diário de Pernambuco em Alagoas noticiava “Até nas vias públicas tem ocorrido óbitos ou agonizam desditosos ‘influenziados'”.

Nos jornais, propagandas de remédios milagrosos (e ineficazes) tomavam as páginas. Não se comprava nada pelo preço justo, o que levou o governo a estabelecer o preço dos medicamentos e das mercadorias básicas. A doença chegou até as autoridades, infectando, inclusive, o governador Fernandes Lima. Nem mesmo o presidente da República foi poupado. Rodrigues Alves, eleito para o segundo mandato, ficou acamado em razão da gripe espanhola, antes mesmo de assumir o cargo. O vice, Delfim Moreira, assumiu interinamente a presidência, mas uma eleição fora de época teve que ser convocada, já que Rodrigues Alves morreu em janeiro de 1919, em decorrência do vírus.

Grupo de americanos utilizando máscaras repercutiu em jornais da época

FOTO: REPRODUÇÃO

Um levantamento publicado nos jornais, em novembro de 1918, revela que, em dez dias, 172 mortos foram enterrados no Cemitério de Maceió (Nossa Senhora da Piedade). Diversas outras vítimas teriam sido distribuídas entre os cemitérios de Jaraguá e Bebedouro, mas não foram contadas. No dia 13 de novembro de 1918, o governo desapropriou o terreno onde hoje é localizado o cemitério São José, no Prado, em Maceió, para que servisse como um cemitério provisório para as vítimas fatais da gripe. Os jornais informavam mais de mil mortes em Maceió.

Cidades do interior também foram atingidas. Com mais de 80 óbitos, Penedo teve quase a totalidade da população infectada, mais de 25 mil indivíduos. Pilar, Alagoas (Marechal Deodoro), Atalaia, São Luiz do Quitunde, Anadia, São Miguel dos Campos, Capela, Viçosa, Murici e Rio Largo também registraram centenas de casos. Em Rio Largo, quase todos os operários da Fábrica Progresso estavam contaminados.
A população, ao Deus dará, recorreu a um remédio caseiro: cachaça com limão e mel. Difundido como a cura para a gripe espanhola. Em consequência da fake news centenária, os limões somem das quitandas e nasce a caipirinha, de acordo com o Instituto Brasileiro da Cachaça. Coincidentemente, em 1918, a peça de teatro de maior sucesso em São Paulo se chama A Caipirinha.

Com idas e vindas, a gripe espanhola deixou o Brasil em alerta entre 1918 e 1920, com um relativo controle da situação somente em meados de 1919, quando um fervoroso carnaval tentava exorcizar o clima de fim dos tempos. O final dessa história é bem brasileira, acabou em samba.

Em 1938, dez anos depois, Carmem Miranda gravava “E o mundo não se acabou”, canção do renomado Assis Valente, que expressava em seus versos a atmosfera daquele período. “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar / Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar / E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada / Por causa disso nessa noite lá no morro não se fez batucada”.]

*Com informações da Agência Senado e do site História de Alagoas.

 

 

Por Gazeta Web

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