Segunda-Feira, 17 de Dezembro de 2018
Educação

Da roça ao serviço público em Brasília – Conheça a história de Josias Mendes!

Por: Vale Agora Web em 09/06/2015 às 9:19
(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Um blog conta uma história de um alagoano que nasceu em um sítio chamado Taboquinha, em Feira Grande, no interior de Alagoas. Um alagoano que cresceu na roça, trabalhando duro para auxiliar no sustento de casa, e que agora é concursado público em Brasília. Mais que  a história de alguém que conseguiu ser aprovado, esta é uma história de superação. É a história de Josias Mendes da Silva.

Pensei em eu mesmo narrar os fatos. No entanto, ao receber as respostas aos meus questionamentos, percebi que essa trajetória de conquistas se torna muito mais bonita se contada pelo próprio autor. Então vamos lá!

DA ROÇA AO SERVIÇO PÚBLICO

“Eu sou Josias Mendes da Silva. Tenho 33 anos. Sou formado em Jornalismo pela Ufal, mas não exerço a profissão. Atualmente sou servidor público e trabalho na Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC, em Brasília.

Nasci em Feira Grande, em um sítio chamado Taboquinha. Essa comunidade possui aproximadamente 700 habitantes e está no limite entre os municípios de Feira Grande, Arapiraca e São Sebastião.

Sou o sétimo filho, de uma família de doze irmãos. Meus pais são pequenos agricultores. Minha mãe é analfabeta e meu pai sabe apenas assinar o nome e ‘domina’ as quadro operações fundamentais da matemática ‘de cabeça’.

Comecei a estudar em 1993, já com 11 anos de idade. Na época, ninguém estudava lá em casa. Todos eram analfabetos, a exceção das duas irmãs mais velhas, que tinham estudado até a então segunda série. Todos trabalhavam na roça de nossos pais e para os fazendeiros da região.

Não sei o porquê, mas naquele ano de 1993, minha mãe resolveu colocar todo mundo na escola. Então, estudei até a quarta série na minha comunidade. Estudava pela manhã e, à tarde, ia pra roça. Rapidamente tomei gosto pelos estudos, porque eu achava bonitas as mensagens de Natal que passavam no rádio e queria aprender a escrevê-las.

Queria ser jornalista, trabalhar no rádio. Mas isso era impossível. Na verdade, a perspectiva era estudar até a quarta série, porque da quinta série em diante teríamos que ir para cidade e não havia transporte escolar no sítio. O que eu queria mesmo era concluir a quarta série e ver se saía do trabalho alugado. Era muito sofrido!

Por sorte, exatamente no ano em que conclui a quarta série, 1996, os prefeitos – tanto o de Arapiraca quanto o de Feira Grande – disponibilizaram transporte escolar para os alunos do ensino fundamental e médio que moravam em Taboquinha. Então, fui estudar em Feira Grande, à noite. Naquele momento, já via a possibilidade de estudar até o ensino médio. Mas não pensava em vestibular. Não sabia nem o que era isso.

DIFICULDADES PARA CONCLUIR OS ESTUDOS

As dificuldades foram diversas. Primeiro, eu trabalhava o dia todo. Às vezes chegava da roça em cima da hora que o escolar passava. Depois, o transporte era uma D20. Quando chovia, nos molhávamos todos.

Outra dificuldade – talvez a maior de todas – era a econômica. Apesar de em 1996 já existir o transporte escolar em Taboquinha, minha mãe pensou em não nos matricular em Feira Grande, porque lá as escolas exigiam farda e meus pais não tinham condições de comprá-las para todo mundo. Eram oito filhos estudando.

Depois, no primeiro ano do ensino médio, ficou mais complicado ainda, porque também tínhamos que comprar livros ou xerocá-los. Enfim, não sei como, mas no final meus pais sempre resolviam e não deixamos de estudar por isso.

No segundo ano do ensino médio, minha mãe resolveu nos colocar nas escolas de Arapiraca, porque no ano anterior houve problemas com o transporte escolar de Feira Grande (passamos três meses indo pra aula de bicicleta, aos sábados, 30 km ida e volta).

Em Arapiraca estudei no Quintella Cavalcante. Lá foi legal, porque os professores falavam em vestibular e, como eu era um aluno aplicado, alguns professores me incentivavam a prestá-lo. Como o sonho do Jornalismo ainda estava vivo e decidi estudar pra ele.

Mas, como trabalhava pelo dia, não tinha tempo. Então, eu estudava de madrugada das 4h às 7h. Quando ia dormir, já deixava os livros e cadernos embaixo do colchão para estudar logo cedo.

Embora eu estudasse muito para Jornalismo, era muito ruim, porque no fundo eu sabia que, mesmo que passasse no vestibular, não teria condições de fazer a faculdade. Como eu iria morar em Maceió? Na verdade eu estudava “à espera de um milagre”! Pensava: vou estudar, e, se eu passar, seja o que Deus quiser!

Terminei o terceiro ano no final de março de 2004 (o calendário da rede estadual estava atrasado). No fim do daquele ano, prestei o vestibular. Eram duas fases, fiquei na segunda.

Engraçado que no dia que saiu o resultado, era o último dia das inscrições do vestibular da UNEAL. Naquele ano, tínhamos plantado algumas tarefas de fumo, e, quando vendemos a safra, meu pai dividiu o dinheiro com os filhos – 100 reais pra cada filho, para que cada um pudesse comprar uma roupa. Como não passei na UFAL, não comprei a roupa, preferi pagar a inscrição da UNEAL (70 reais) para o curso de Letras e fiquei apenas com os 30 reais que restaram.

Passei na UNEAL em 1º lugar no curso e tirei a 2ª maior nota de todo o vestibular. Estudei Letras todo o ano de 2005 e já tinha desistido do Jornalismo. 

No final de 2005, chegou um novo padre (Enaldo) na paróquia de Feira Grande. Como minha família é católica, quando ele ia celebrar missa em Taboquinha, geralmente almoçava lá em casa. Então, certa vez, minha mãe contou minha história para ele e daí ele disse que se eu quisesse tentar Jornalismo novamente, eu poderia morar na casa da mãe lá em Maceió, caso passasse. Resolvi fazer o vestibular e, dessa vez, passei e fui morar na casa da mãe do padre (Dona Eulália).

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A MUDANÇA DE TABOQUINHA PARA MACEIÓ

Os primeiros meses em Maceió também foram difíceis. A casa de Dona Eulália ficava no Conjunto Virgem dos Pobres II, ao lado de uma favela. O lugar era muito pobre e extremamente violento.

Mas acho que o momento mais difícil de toda essa história foi na própria Universidade. Foi lá que mais sofri, sobretudo com o “preconceito”, embora ele tenha partido mais de mim do que os outros.

Já no dia da matrícula do curso veio o primeiro susto. Deparei-me com a maioria dos meus mais novos colegas. Mas praticamente todos eles eram muito diferentes de mim. Era um monte de gente bonita, entre 17 e 18 anos, com cara de riquinhos e que falavam em bebedeiras. Enquanto eu já tinha 24 anos, com cara de 30, nem bebia e ainda era religioso e vivia de favor na casa de estranhos (até então eu nem conhecia a mãe do padre).

Pensei até em desistir do curso. Eu tinha medo de a turma não me aceitar, por isso eu procurava me afastar dela. Acho que passei uns quatro ou cinco meses sem praticamente me relacionar com ninguém. Algumas pessoas, como Eduardo, Naara, Victor, até que se aproximaram de mim, mas eu era muito reticente.

Um dia, no entanto, na aula de Antropologia, assistindo o filme A Missão, o qual versa sobre a luta dos Jesuítas contra a escravização dos índios brasileiros, eu chorei e vi que uma menina também chorou – a Lorena. Aquilo foi bom, porque depois da aula ela veio falar comigo e disse que também era do interior, tinha religião e que às vezes também tinha ‘receceio’ do novo mundo que se apresentava pra ela na Universidade.

Ali eu percebi que ganhei uma amiga (o que fato foi verdade) e que ela vinha de uma cultura mais ou menos parecida com a minha. Foi um alívio. Eu não estava só. Isso foi fundamental para eu me sentir mais confiante e procurar me aproximar e me envolver mais com as outras pessoas da turma. Com o tempo, o “preconceito” que eu tinha de mim mesmo foi se acabando aos poucos e daí tudo ficou mais tranquilo.

Na casa de Dona Eulália, eu sempre fui bem tratado. Não pagava nada para morar lá, nem a comida. Mas isso me incomodava. Então, oito meses depois, consegui uma vaga na Residência Universitária Alagoana.

Na residência eu morei quase quatro anos, com 102 pessoas, dos mais diversos credos, culturas, opção sexual, enfim, lá acho que foi onde tive a minha principal conquista dos tempos da Universidade, porque quebrei alguns preconceitos e aprendi a viver no meio coletivo e, sobretudo, a respeitar a diversidade, mesmo quando ela era tão diferente daquilo que eu acreditava.

(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

O INÍCIO DOS ESTUDOS PARA CONCURSOS

Decidi estudar para concursos em 2010, no último ano da faculdade. Na verdade, eu queria seguir carreira acadêmica, mas na UFAL não havia mestrado em comunicação e a situação financeira continuva péssima para tentar mestrando em outro estado.

Atuar profissionalmente em Alagoas seria a segunda alternativa, porém eu tinha medo de não ter espaço, pois o mercado era muito restrito e eu sabia de minhas limitações.

No começo eu fazia qualquer concurso que aparecesse, porque não queria terminar a faculdade e ficar desempregado. O primeiro que passei foi para carteiro dos Correios. Passei em segundo lugar na prova, mas fiquei no teste físico. Depois passei no censo do IBGE 2010 e, após isso, em diversos outros, a maioria de ensino médio.

FUTURO

O cargo que vou assumir agora no CNMP é relativamente bom. Então vou parar de fazer “qualquer” concurso. Agora o foco vai ser para o que eu quero seguir carreira -Auditor Fiscal do Trabalho. A meta é ser aprovado em até 6 anos. Fora ele, também posso fazer concurso para o Senado, a Câmara e o TCU, porque os salários são muuuuito bons! E por fim, ainda pretendo fazer uma faculdade de Direito. Só por hobby.

DIFICULDADES EM BRASÍLIA

Em Brasília, a maior dificuldade por que passei foi em relação ao clima. Aqui o ar é muito seco e, de abril a outubro, as madrugadas são muito frias (pelo menos pra gente do nordeste). Chega a 11 graus, 12 graus… Também tem a questão do medo do novo, de viver sozinho em um lugar tão distante do meu povo. O povo daqui é mais fechado, não tem a alegria do nordestino.

Uma vez ou outra vez aparece alguém que tira uma piadinha com meu sotaque, chama de cabeça chata (cearense), essas coisas. Mas levo numa boa. Como eu disse, sofrer mesmo foi no início da Ufal. Hoje eu acho que na maioria das vezes o preconceito está dentro da gente. Quando a gente tem a consciência que é maior que essas coisas não se deixa abater e perder tempo e a saúde com isso. Pelo contrário, procura se impor, buscar o espaço, sem arrogância e respeitando as pessoas. Daí o retorno também é o respeito e a admiração.

CONSELHOS E AGRADECIMENTOS

Costumo dizer que se você tem um sonho, transforme-o objetivos e metas e corra atrás, desse modo, provavelmente você irá alcançá-lo. E se você for do bem, sempre vai aparecer alguém para lhe dar a mão e lhe ajudar. Essa é a lei do universo!

Para mim, foram muitos que me deram a mão. Sem contar a família, tem o padre Enaldo que foi a base de tudo; a Naara e sua mãe, Cristina, que me ofereceram uma bolsa de trabalho no curso de Nutrição, no momento em que eu passava por dificuldades, porque embora eu morasse de graça em Maceió precisava pagar a passagem do ônibus pra UFAL, tirar xerox dos materiais de estudo… e eu não tinha dinheiro!. Tem o Victor que me ensinou a digitar um documento no world (se não eu soubesse digitar, não tinha como ficar com a bolsa de trabalho; tem o Eduardo que, não sei se se lembra, mas se ofereceu pra digitar meus trabalhos; tem as professoras de Feira Grande Edilene e Eliene Gomes que até o ano passado tinham guardado o jornal da lista do vestibular que constava minha aprovação; tem a própria Lorena e a Fernanda que foram como irmãs. Enfim, é muita gente pelo quais eu tenho muita gratidão.

Não sou financeiramente rico, mas de vez em quando fico pensando: poxa, na minha adolescência quem convivia comigo eram cortadores de cana, pedreiros, agricultores. Agora é um bando de gente de preto, advogados, administradores, engenheiros, promotores… O que o estudo não faz!!! Mas eu sempre procuro não esquecer que os primeiros, todos, são meus amigos; os segundos, alguns são.

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