Segunda-Feira, 18 de Dezembro de 2017
Ciência

Inflamação rara que fez bebê mexicano chegar aos 28 kg com dez meses de idade

Por: Vale Agora Web em 20/11/2017 às 11:12
FOTO: PEDRO PARDO/AFP

FOTO: PEDRO PARDO/AFP

As imagens do bebê mexicano Luis Manuel González deram a volta ao mundo nos últimos dias. Com só 11 meses, o menino nascido no estado de Colima, no oeste do México, alcançou 28 kg, o peso de um garoto de nove anos.

Mas como se explica a obesidade de Luis Manuel? Existe cura?

A BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, conversou com o médico que cuida atualmente do bebê, o cardiologista Gustavo Orozco, do Instituto de Investigação de Inflamações, em Guadalajara.

Ele explicou qual é o diagnóstico de Luis Manuel e em que consiste o tratamento “sem medicamentos”, com o qual ele espera reduzir a obesidade da criança.

Inflamação celular

No começo se pensou que o bebê tinha a chamada Síndrome de Prader Willi, uma doença que desencadeia uma fome insaciável. Mas essa possibilidade foi descartada.

Isabel Pantoj, de 24 anos, segura seu filho Luis González na cidade de Colima, México

FOTO: PEDRO PARDO/AFP

“O menino não tem Prader Willi, de acordo com os testes genéticos realizados pelo Instituto Mexicano de Seguro Social”, ressaltou Orozco.

“O diagnóstico que constatamos é que o menino sofre de uma obesidade causada por uma inflamação celular”, explicou o médico.

Essa inflamação celular faz com que o bebê cresça de forma desordenada. Ela é causada por uma deficiência no sangue e no leite materno de EPA e DHA – óleos ômega 3 essenciais para ativar o metabolismo e evitar a obesidade em bebês.

O diagnóstico de inflamação celular foi possível graças a um teste oferecido para o público apenas na Alemanha, no Canadá e no instituto particular onde trabalha Orozco, que é filiado à Fundação para a Investigação da Inflamação (Inflammation Research Foundation-IRF), com sede em Boston, nos EUA.

Obesidade programada

Luís Manuel tem uma obesidade que foi “programada” no ventre por deficiências nutricionais durante a gravidez e, posteriormente, no aleitamento materno, disse o médico.

Luiz Gonzales, de 10 meses, em seu carrinho na cidade de Colima, México

FOTO: PEDRO PARDO/AFP

Mas o que significa uma obesidade “programada” no útero?

“Pesquisas no Canadá e na Alemanha mostram que a mulher grávida deve consumir certas gorduras que evitam que o cérebro, o pâncreas e os órgãos internos da criança se programem para produzir certos hormônios em excesso, que fazem com que o tecido adiposo aumente de forma dramática”, explicou o cardiologista.

As pesquisas pioneiras sobre o tema, feitas em Guelph, no Canadá, começaram precisamente quando cientistas detectaram que as mães esquimós tinham níveis muito elevados de ômega 3 por causa da alimentação – e que seus filhos não eram obesos.

‘Tatuado nas células’

Orozco explicou que, durante a gravidez, há janelas de oportunidade durante as quais são “programadas” a saúde e futuras doenças que o bebê terá quando adulto.

“Fica ‘tatuado’ dentro das células a forma como se comportarão diante da alimentação e de uma doença.”

Há gorduras que protegem a criança e evitam a inflamação celular, mas Luis Manuel não recebeu níveis adequados de ômega 3.

O bebê come normalmente, mas responde produzindo hormônios demais, “principalmente insulina, e esse hormônio em excesso faz com que o tecido adiposo aumente de tamanho”, disse o médico.

Leite materno e gorduras ômega 3

Orozco explicou a importância das gorduras ômega 3, que estavam em níveis deficientes no sangue e no leite de Isabel Pantoja, a mãe de Luis Manuel.

“O leite materno é muito mais rico em todas as gorduras que qualquer outro alimento. Tem um pouco de proteína, um pouco de açúcar e muita gordura.”

“Uma das gorduras que têm efeito benéfico é a EPA ômega 3, proveniente do peixe, que a mãe guarda no tecido adiposo. Por isso, as mães precisam engordar entre 8 kg e 10 kg, e o tecido adiposo delas deve armazenar esse tipo de gordura.”

O cardiologista mexicano destacou que a gordura EPA passa do tecido adiposo da mãe para o bebê através da placenta, reduzindo a inflamação dos tecidos. “O que silencia os genes da obesidade.”

“A gordura DHA ômega 3, também derivada do peixe, se acumula no tecido adiposo da mãe, mas principalmente na gordura ao redor das glândulas mamárias”, acrescentou. Quando o bebê nasce, esta gordura é transmitida pelo leite, aumentando o metabolismo da criança.

No caso de Luis Manuel, houve uma “tempestade perfeita” em que as deficiências de ômega 3 coincidiram com outros fatores, como uma tendência genética herdada dos pais.

“Se uma mulher não consome essas gorduras ômega 3, mas sua tendência genética não é muito propensa à obesidade, o fato de ter consumido pouco ômega 3 não vai resultar numa obesidade tão severa aos filhos.”

Suplementos

A deficiência de gorduras ômega 3 da mãe de Luis Miguel podia ter sido corrigida simplesmente com suplementos. O problema, segundo Orozco, é que às vezes se recomenda dar às mães somente o DHA ômega 3, mas não o EPA, que reduz a inflamação dos tecidos. “Se não dão as duas coisas juntas, não vai haver o efeito benéfico.”

O especialista também destaca que é importante verificar que se tratam de suplementos de qualidade. “Hoje os mares estão contaminados por substâncias tóxicas, e os peixes contêm substâncias contaminantes junto com o ômega 3”, explicou.

Segundo Orozco, associações de ginecologia e obstetrícia fazem restrições ao consumo frequente de peixe por mulheres grávidas, por causa dessa contaminação.

“É preciso tomar um suplemento que tenha EPA e DHA em concentração alta, de pelo menos 75% do peso de uma cápsula, e que não tenha contaminantes. Há páginas na internet onde é possível verificar se uma marca de suplementos está livre de contaminação e se contém a concentração devida de ômega 3.”

Orozco explicou ainda que em alguns países, como a Alemanha, os níveis de ômega 3 são monitorados em todas as mulheres grávidas, para prescrever suplementos. São analisados, inclusive, os níveis de ômega 3 no sangue do cordão umbilical logo após o parto, para verificar a saúde do bebê.

Tratamento ‘incrível’

O que pode ser feito para ajudar Luis Manuel? “O tratamento do bebê, por incrível que pareça, não consiste em medicamentos nem em cirurgia”, explicou o cardiologista.

“O tratamento é nutricional. Tem que ser uma dieta em que o consumo de açucares refinados seja severamente reduzido, para que o corpo não produza muita insulina a cada vez que o bebê comer açúcares.”

“E deve ser rica em gorduras. Mas estamos falando em gorduras anti-inflamatórias derivadas do azeite de oliva, das amêndoas e nozes e, sobretudo, de gorduras derivadas do peixe, não somente encontradas no alimento, mas também na forma de suplemento nutricional de ômega 3 para consumo humano, na forma líquida e em doses muito altas, como 10 gramas por dia”, explica.

“Vamos monitorar o sangue do bebê para ver se esses 10 gramas são suficientes para reduzir a inflamação ou se teremos que subir a dose.”

Três meses

Orozco destacou que não há casos prévios de tratamentos com outros bebês com condição similar a de Luis Manuel.

“Mas temos um precedente. Há alguns anos, tratamos de um menino que tinha 9 anos e pesava cerca de 65 kg. E o que observamos é que demoramos três meses para reduzir a gordura e evitar complicações, porque o caso daquele menino lamentavelmente já tinha se complicado, já que havia gordura no coração, nos pulmões e no fígado.”

Orozco afirmou que existe uma janela de dois anos após o nascimento de um bebê em que se pode reprogramar certas respostas do organismo. É possível, segundo ele, que, com as mudanças nutricionais e de doses de gordura ômega 3, Luis Manuel não seja, no futuro, um adulto obeso.

Por BBC | Portal Gazetaweb.com

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