Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018
Tecnologia

Escolas estimulam projetos inovadores para incentivar os cientistas do amanhã

Aulas de robótica e projetos de ciências contribuem para o desenvolvimento das crianças e adolescentes

Por: Vale Agora Web em 31/10/2018 às 5:24

201810292305_05dc86aa29Há quem diga que ensinar é uma arte e um dom. É apresentar um mundo de possibilidades, novidades e desafios para os mais variados espectadores. O ambiente escolar precisa acompanhar as necessidades da sociedade, oferecendo aos estudantes mecanismos para o desenvolvimento de habilidades que os insira no mercado de trabalho, cada vez mais exigente.

Permeado por uma intensa curiosidade e inúmeras perguntas, o universo das crianças e adolescentes é repleto de fases e desafios, entre eles, aliar diversão, aprendizado, disciplina e criatividade. Professores e instituições de ensino alagoanas estão investindo em aulas de robótica para incentivar a produção de projetos científicos pelos estudantes.

Presente na rotina, a linguagem tecnológica passou a ser indispensável dentro da sala de aula. Com a robótica, os alunos – de todas as idades – aplicam os conceitos de matemática, física e ciência de forma prática e envolvente, o que facilita o aprendizado e desperta os jovens cientista, contribuindo não só com o futuro das crianças, mas com o do Estado e do país. O Colégio Contato Maceió, entre as aulas consideradas tradicionais, oferece turmas de robótica, modelagem 3D e laboratórios de ciências, física e química.

Aula de robótica transforma os conceitos ensinados em sala de aula em algo real

FOTO: JOSÉ RONALDO

O professor de Matemática, João Neto, explica que o colégio sempre busca conhecer o cenário nacional, participando de feiras, para trazer alternativas para os estudantes. “A gente sempre buscou e tentou se antecipar a questão da tecnologia e da criatividade, buscando colocar as pessoas para pensar. O princípio fundamental do aprendizado é fazer pensar. Então, se a gente consegue colocar as pessoas para pensar, já é um primeiro passo para criatividade, para ter vontade de aprender, para se esforçar, para ter disciplina”, destacou.

De acordo com ele, os estudantes se transformam através da tecnologia. “Eles se tornam importantes e são protagonistas do processo de aprendizagem. Vários alunos já saíram daqui e foram cursar tecnologia da informação, mecatrônica. A linguagem tecnológica, atualmente, é fundamental, aliada a sócio-emocional”, destaca o professor.

A robótica no ensino

Ao pensar em robôs, imaginamos máquinas complexas e gigantes que vivem distantes da realidade infantil. No entanto, os robôs estão presentes na rotina de muitas maneiras, como nos brinquedos para crianças.

A professora Michelle de Melo explica que a robótica é uma disciplina extracurricular que trabalha matemática, física e raciocínio lógico. Na parte humana, ela também ensina os alunos a importância do trabalho em equipe e incentiva os estudantes a não desistirem diante de um obstáculo.

Michelle de Melo estimula os estudantes a se engajarem com a produção científica

FOTO: JOSÉ RONALDO

 

“Mas a diferença disso é transformar a sala de aula em algo que você pode ver e vivenciar. É um trabalho lúdico que, por exemplo, usa o conteúdo trabalhado em ciências, como movimento de translação e rotação, para criar um robô e os alunos terem a visão do que é e como acontece o movimento”, complementa a professora.

Durante as aulas, os alunos, do 6º ao 8º ano, trabalham com o NXT, com o EV3 e com sucata eletrônica e material reciclado. “A eletrônica são os motores que retiramos de equipamentos como DVD, videogame e notebook. Os motores que não servem mais, nós tiramos e utilizamos. A sucata reciclável é papelão, canudo, garrafa pet, tampinha de refrigerante”.

Produção – teoria e prática

Aliando o conteúdo teórico das aulas de ciências e utilizando material reciclado, os estudantes criaram uma mão robótica, que mostra os tendões, os nervos e os movimentos. O robô é utilizado para explicar aos alunos os tipos de doenças que podem atingir as mãos, como as provocadas por movimentos repetitivos.

Robótica Colégio Contato

Imagem: Rafael Maynart

A partir do 8º ano, a professora conta que os estudantes passam a participar das competições – regionais, nacionais e até internacionais -, que exigem um nível de matemática mais avançado. Como é o caso da Olimpíada Brasileira de Robótica (PBR). “Na última competição da OBR, ficamos em 3º lugar. Competimos com 51 equipes e na mundial, fomos para a China e também conquistamos o 3º lugar”.

Para o aluno Andrey Palmeira, de 14 anos, o foco agora é atingir o objetivo da próxima competição da OBR, criar um robô que siga uma linha. “Eu sempre tive curiosidade nessa área, sempre quis fazer algo com isso e resolvi entrar na turma de robótica. A partir daí, eu fui me dedicando até chegar às competições, nas regionais da OBR. A gente já criou um robô para lutar sumô e agora nosso foco principal é criar um rôbo que siga uma linha”.

Com conceitos de ciências, estudantes criaram mão robótica

FOTO: JOSÉ RONALDO

 

Projetos científicos na educação infantil

Algumas disciplinas e conteúdos podem ser difíceis para as crianças. Por vezes, é complicado entender como utilizar os conceitos aprendidos em sala de aula no dia a dia. A Escola Espaço Educar busca fornecer um meio interativo de ensinar as crianças tirando os assuntos das páginas dos livros e aplicando na vida real.

A professora Thania explica que a abordagem da escola é construtivista e que todo trabalho realizado com os alunos busca desenvolver o pensamento crítico e científico. “Acreditamos que o conhecimento não é transferido, é construído em parceria com as crianças. Desde o início, da fundação da escola, são desenvolvidos projetos científicos que são vinculados aos projetos de ciências, história e geografia. Já são 20 anos e a escola vem se aperfeiçoando”.

Os projetos e conteúdos desenvolvidos na escola seguem a perspectiva de que a criança investigue e descubra. Segundo a professora, nos últimos três anos, a escola tem passado por um maior movimento de inovação, tanto com a reformulação do currículo, se embasando nas novas leis e parâmetros, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), quanto na capacitação de todos os envolvidos com o ensino, investindo em novas formas de atuação e novas metodologias. A escola mantém no calendário anual a Mostra Científica. “Para a Mostra Cientifica, com a pesquisa científica aprimorada, participam os alunos do 2º ao 5º ano, mas a metodologia de projetos começa no mini-maternal”, destaca Thania.

Na primeira etapa, o trabalho é com os professores. “Nós apresentamos toda a fundamentação do método científico, o que é a iniciação científica no ensino fundamental e depois adequamos isso aos projetos didáticos”, diz Thania. Os pais também participam dessa fase, com reuniões para apresentar o conteúdo de forma antecipada, para que assim, eles possam auxiliar as crianças.

“A metodologia que a gente utiliza é a de pesquisação, que já está ancorada ao modelo construtivista, pensando no processo da criança”. O modelo, segundo a professora, segue um tema central durante todo o ano. Dentro desse tema, as professoras trabalham os diferentes componentes curriculares – português, história, ciências e geografia -, trazendo de forma interdisciplinar e contextualizada. “E quando chega próximo ao período da Mostra, estabelece um projeto didático”, explica.

Espaço Educar estimula tirar os assuntos das páginas dos livros e aplicar no cotidiano

FOTO: RAFAEL MAYNART

 

Durante o projeto, as turmas trabalham com um problema, que é levado para a sala de aula, questionando as crianças sobre qual a solução para esse problema dentro dessa temática. As crianças levantam as hipóteses, com os conhecimentos prévios e, a partir dessas hipóteses, a professora começa a introduzir materiais de apoio, como vídeos, músicas, artigos científicos.

Nas etapas do processo científico tem a definição do tema geral, a formulação do problema, as hipóteses e, a partir dessa metodologia de pesquisação, são definidas algumas estratégias. Como, por exemplo, trazer um especialista da área para responder perguntas, vídeos, aula de campo e conhecer determinada realidade.

“A depender de cada projeto, são diferentes estratégias traçadas, mas sempre com a participação ativa das crianças. A partir disso tudo, as crianças começam a analisar esses dados. Aqui a gente tem um trabalho de educação com o uso de tecnologias digitais da informação e comunicação”.

Dentro desse processo de descobertas, os alunos começam a elaborar as primeiras conclusões, com mapas mentais, questionários, gráficos e textos. “Eles têm um diário de bordo, um diário da pesquisa, que eles usam para fazer anotações das descobertas deles, que eles levam para casa para eles poderem sistematizar todo esse conhecimento desenvolvido”, explica a professora.

O projeto científico segue sempre paralelo a realidade dos estudantes da Escola Espaço Educar. “Utilizamos os conhecimentos prévios, com a mediação da professora, de forma multidisciplinar”. No momento da culminância da Mostra Cientifica, as crianças fazem uma apresentação em formato de comunicação oral para os pais. “Elas são responsáveis em transmitir aos pais todo conhecimento gerado no decorrer do projeto”, destaca a professora.

Impressora 3D Colégio Contato

Imagem: Rafael Maynart

Dependendo do projeto, essa apresentação pode ter algo o lado prático também. A professora conta que na Mostra de 2017 o tema geral era ‘Sustentabilidade e Educação Financeira’ e a turma do 4º ano elaborou um projeto sobre empreendedorismo.

“A problemática foi sobre como ser um empreendedor diferenciado, então as professoras foram construindo com eles esse percurso científico de investigar na história da humanidade qual o conceito de empreendedorismo, quais foram os primeiros empreendedores, aqui no Brasil e no mundo quem são os empreendedores de destaque, quais as características deles. Trouxemos alguns empreendedores para eles fazerem uma entrevista e no final do projeto, além da apresentação para os pais, eles criaram algumas microempresas”.

Para a professora o mais gratificante foi perceber que o projeto não parou com a culminância. “Com o incentivo da família, algumas crianças continuam com as microempresas ativas. O conhecimento começa aqui e pode ser expandido. Desenvolvemos outros projetos e incentivando sempre a iniciação cientifica desde pequenininhos”.

O objetivo da escola é procurar sempre que os projetos tenham esse cunho cientifico, embasamento, mas que também respeitem a necessidade das crianças. “Que seja de uma forma lúdica, que eles aprendam brincando, se divertindo e que não seja um formato que limite”, pontua Thania.

Rede estadual

Implantado em 2016, pelo Governo de Alagoas, o Programa de Robótica da rede estadual já contempla 95 unidades de ensino. Para incentivar que os jovens participem das ações, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) tem promovido formações para os professores responsáveis e levado estagiários da área para dar apoio os docentes em todas as regiões.

Utilizando material reciclável estudantes produziram projetos nas áreas de ciências, tecnologia, inovação e sustentabilidade

FOTO: ASCOM SEDUC

 

Na Escola Estadual Noel Nutels, no Jacintinho, os estudantes do 6º ao 9º ano vem apresentando um show de criatividade com projetos nas áreas de ciências, tecnologia, inovação e sustentabilidade. Pipoqueira sustentável, gerador de energia eólica, filtro de água, robô de limpeza eletrônico, microscópio, aparelhos para visualizar a intensidade vocal, vassouras e puffs com garrafas pet, estojos escolares com garrafas plásticas, caqueiras com casca de coco, entre outras, foram alguns dos projetos apresentados.

Em Arapiraca, a professora Clécia Santos Bastos, têm produzido fenômenos ‘mágicos’ na escola. Com o uso de material reciclado, a docente e os alunos já produziram câmara escura, para estudar as lentes e os efeitos de como o olho enxerga; montanha-russa, mostrando a diferença entre energias cinética e potencial; desenvolveram um robô à base de pressão hidráulica para a Mocite/Epial, rendendo o troféu de 3º lugar na categoria; construíram vários jogos, entre outros.

“Eles não fazem apenas o exercício com cálculo, a gente ocupa os espaços da escola, peço que eles tragam carrinhos para estudar a velocidade média atingida, usamos fita métrica para transformações de medidas de centímetros para metros, faço eles sentirem a física e, com base nestas brincadeiras, fui convocada pela escola para fazer uma disciplina nova, a eletiva ‘experimentação da física no cotidiano’, onde a gente brinca mais e aprende mais ainda. É o momento que percebo maior prazer deles em estar na sala de aula, eles revelam: ‘professora eu tenho prazer em assistir sua aula’. Para mim é muito gratificante, fico fascinada com a fala deles”, destaca.

Clécia Santos Bastos utiliza fenômenos do cotidiano para ensinar física

FOTO: ASCOM SEDUC

Por Livia Leão e Rafael Maynart | Portal Gazetaweb.com

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